Um episódio recente no futebol distrital recorda-nos que o racismo deve ser combatido sem hesitações, mas também que o respeito no desporto deve ir muito além dessa luta…
O futebol voltou recentemente a lembrar-nos que, infelizmente, ainda existem atitudes que não têm lugar nem no desporto nem na sociedade. O jogador brasileiro Lucas França, do Melgacense, terá sido alvo de um ato de racismo durante o jogo frente ao Vitorino de Piães, quando um adepto, alegadamente, o ofendeu referindo-se à sua cor de pele.
Perante isto, a primeira palavra só pode ser uma: condenação absoluta. O racismo não pode ter espaço em lado nenhum, nem nos estádios, nem nas ruas, nem em qualquer contexto da nossa vida em sociedade. É um problema real, um problema social, e combatê-lo é responsabilidade de todos.
Mas também é importante destacar aquilo que foi positivo no meio deste episódio. Tanto Lucas França, como o Melgacense e o Vitorino de Piães, reagiram com serenidade e responsabilidade. Os comunicados emitidos pelos clubes condenaram o ato isolado de quem teve esse comportamento, sem transformar o episódio num ataque coletivo. Da mesma forma, Lucas França mostrou-se naturalmente magoado e indignado, mas também sereno, não querendo dar mais palco a quem agiu mal nem colocar-se numa posição de vitimização.
Essa postura merece reconhecimento. Porque combater o racismo não é apenas denunciar quando ele acontece, é também saber responder com dignidade, com firmeza e com equilíbrio.
Ao mesmo tempo, este episódio leva-nos a refletir sobre algo que muitas vezes é ignorado, o ambiente nas bancadas. Quem acompanha futebol sabe que, frequentemente, são ditas palavras e insultos extremamente ofensivos dirigidos a jogadores, árbitros e outros intervenientes do jogo. Improperios que muitas vezes ultrapassam todos os limites do respeito e da educação.
O racismo é grave, muito grave, e nunca pode ser tolerado. Mas há também muitas outras ofensas, algumas profundamente ordinárias e desumanas, que infelizmente continuam a ser vistas como algo “normal” no futebol. E não deviam ser. O respeito tem de existir sempre, independentemente da cor, da origem, da profissão ou do papel que cada um desempenha dentro do desporto.
O racismo existe, não vale a pena fingir que não. Mas a forma como lidamos com ele também diz muito sobre nós enquanto sociedade.
Recordo um episódio que ficou na memória do futebol mundial. Há mais de dez anos, Dani Alves, então jogador do Barcelona, foi alvo de um gesto racista quando um adepto atirou uma banana para o relvado. Em vez de parar o jogo ou alimentar o conflito, Dani Alves pegou na banana e comeu-a. Foi uma resposta inesperada, simples, mas poderosa, uma verdadeira “chapada de luva branca” para quem tentou humilhá-lo.
Claro que cada pessoa reage de forma diferente e todas as reações legítimas devem ser respeitadas. Mas aquele gesto mostrou que, por vezes, a maior força está na dignidade e na inteligência com que se enfrenta o preconceito.
Que o episódio vivido por Lucas França sirva, acima de tudo, para nos fazer pensar. Para lembrar que o futebol deve ser um espaço de paixão, de competição e de união, nunca de ódio ou discriminação.
Não ao racismo. Nunca. Mas também não ao desrespeito, aos insultos e à falta de humanidade que tantas vezes se ouvem nas bancadas.
O desporto só será verdadeiramente grande quando o respeito for maior do que qualquer rivalidade. ⚽
Álvaro Amorim
